Sobre a quantificação: outros saberes, outros conhecimentos, outras soluções

Na aula passada, vimos que a contagem primeira precursora das ideias numérias, que nos leva diretamente ao conjunto dos números naturais. Aprendemos, ainda, que essa passagem se dá por meio do processo de abstração (perda de características ou desconsideração). Nesse processo, surgiu o debate sobre a unidade e o Prof. Giraldo disse que nossa definição de unidade pode variar em diferentes culturas e contextos. Fiquei pensando sobre isso…

Na mesma semana, fui a um restaurante japonês e, lá, perdi ao garçom três unidades de um produto novo que havia sido lançado. Depois de um tempo, o garçom me trouxe 12 sushis, o que me levou ao questioná-lo “não pedi apenas três unidades?”. Ele, então, respondeu: “sim, mas cada unidade vem 4 sushis iguais”. Ou seja, de novo a noção de unidade voltou a habitar minha mente. Assim, fui buscar nos anais do Congresso Brasileiro de Etnomatemática (CBEm) algumas experiências de outras culturas que permeassem a discussão sobre quantificação.

Com a busca nos anais do CBEm, encontrei a pesquisa de Adailton Alves da Silva, “Alguns aspectos do sistema de contagem A’uwẽ/Xavante: outros saberes, outros conhecimentos, outras soluções“, que objetivou discutir e refletir alguns aspectos do sistema de contagem dessa etnia. Segundo o trabalho, ao longo da sua história pelos cerrados brasileiros, os A’uwẽ/Xavante desenvolveram habilidades para estimar a quantidade de alimentos necessária para o grupo, o tempo gasto nas expedições de caça e pesca, o tempo dos fenômenos naturais e astronômico, etc. Esse processo de observação e sistematização dos fatos, junto aos aspectos de transcendência do grupo (como por exemplo, os mitos) constituíram a base da contagem.

Pelo mito de criação do povo, tudo começa a partir do surgimento de um grande arco-íris que dele saiu uma voz ordenando a criação de dois homens sobre a terra: Butséwawẽ e Tsa’amri. Com a reclamação de não terem companheira, a voz orientou que buscassem pedaços de galhos e foi, a partir dos referidos “pauzinhos” que surgiram duas mulheres, suas esposas. Esse mito justifica a maneira como esse povo sistematiza sua numeração, principalmente até seis.

Sistematização dos números A’uwẽ/Xavante. Fonte: Silva (2012).

Para contagem, os índios A’uwẽ/Xavante agrupam os dedos da mão esquerda de dois em dois, unindo também as mãos através da junção dos polegares para representar o número seis. Nesse contexto, o pesquisador Adailton da Silva afirma que a contagem está estruturada mais culturalmente do que aritmeticamente. Curioso, né? Ah, e apesar de o sistema ter denominação somente para os seis primeiros símbolos numéricos (1 a 6), isso não quer dizer que o povo conte apenas até seis, tá?

Pra quem quiser continuar a pesquisa nos anais do CBEm, seguem os links:

Até mais!

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