A aula 03 do curso de Análise Real abordou as ideias relativas a sistemas de numeração. O Prof. Giraldo apresentou diversos sistemas e algumas de suas peculiaridades. Neste post, trago exemplos de pesquisas que ampliam as opções para ensino dos sistemas de numeração, indo além dos tradicionais inca, maia, egípcio, babilônico e romano. Trazemos, especialmente, sistemas indígena-brasileiros de numeração.
Sistema de Numeração Javé
Para o povo Javaé, em Tocantins, os números são representados pelo corpo – os dedos das mãos, os dedos dos pés, e a mão e o pé como um todo. Quando se findavam os dedos, a contagem era interrompida, se tornando “muito”, se referindo a uma grande quantidade de elementos. Assim, antigamente, os agrupamentos de unidades quantificados pelos Javaé possuíam no máximo vinte elementos, a quantidade de dedos que um ser humano possui. Os vinte elementos utilizados para a contagem eram suficientes para o povo Javaé desenvolver as atividades do dia a dia, sendo utilizados nas quantificações, divisões e medições necessárias.
Por meio das experiências vivenciadas por Gabriela Camargo Ramos e José Pedro Machado Ribeiro, no curso de Educação Intercultural da UFG, surgiram inquietações em relação à educação escolar indígena que culminaram no desenvolvimento de uma pesquisa de cunho etnográfico com o povo Javaé. A pesquisa foi realizada por meio de etapas de campo na aldeia Canoanã, localizada na Ilha do Bananal, município de Formoso do Araguaia – TO. O objetivo central do estudo consistiu na análise e compreensão dos conhecimentos etnomatemáticos presentes nos saberes e fazeres Javaé, tendo como aporte para a análise as reflexões do programa Etnomatemática, da interculturalidade, da decolonialidade e da ecologia de saberes. Neste texto são discutidos os resultados obtidos nas análises das etapas de campo, em que são apresentados conhecimentos etnomatemáticos Javaé relacionados ao sistema de numeração.
Sistema de Numeração Guarani
Os guarani são uma das mais representativas etnias indígenas das Américas, tendo, como territórios tradicionais, regiões da Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. Eles se organizam internamente em diversos grupos semelhantes nos aspectos fundamentais de sua cultura e organizações sociopolíticas, mas diferentes no modo de falar a língua guarani, de praticar sua religião e no que diz respeito às tecnologias que aplicam na relação com o meio ambiente. A principal base de contagem Guarani é cinco e há dois motivos que justificam isso:
- Primeiro, o número de dedos de uma mão, que geralmente é cinco. Neste caso, a disposição dos dedos para contar é feita de forma a constituir pares dentro de cada mão. Isto porque e, na cultura guarani, a constituição das coisas é feita aos pares (homem-mulher; sol-lua; etc).
- Segundo, é que para fazer uma plantação de mandioca, os Guarani costumam cortar o caule em pequenas partes de maneira que cada parte é seccionada a cada grupo de cinco caroços. Depois de feita a seção, cada pedaço do caule é enterrado. Nesse contexto, é recorrente a prática de contar em grupos de cinco elementos, o que justifica a base cinco.
Diante desse quadro e da perspectiva multicultural da escola, o artigo de Sérgio Florentino da Silva e Ademir Donizeti Caldeira tem como objetivo discutir algumas possibilidades de linguagem oral presentes no sistema de contagem Guarani das Aldeias Itatydo Morro dos Cavalos e M’Biguaçu, localizadas, respectivamente, nos municípios de Palhoça e Biguaçu, no estado de Santa Catarina. Os resultados evidenciaram que os Guarani possuem concepções em sua cultura que possibilitam elaborar um rico conjunto de termos linguísticos que constituem seu sistema de contagem.


